Depois de tanto tempo, sempre dependendo ou fazendo planos pensando nos outros. Finalmente pude fazer o que bem entendo. De todos os sonhos que já tive, decidi fazer meu intercâmbio para Londres. Seriam só três meses, mas eu nunca poderia imaginar que fosse acontecer tanta coisa em tão pouco tempo.

Na minha primeira semana, como já tinha me instalado na cidade e feito algumas aulas do curso de inglês, decidi sair do meu quarto e me aventurar pela vida social de Londres. Os bares sempre me chamaram a atenção, principalmente um que tinha na rua do meu apartamento.

Ainda nem era 6 da tarde, chegando ao Dante’s bar, do lado de fora pela janela, vi que todas as mesas estavam vazias. Talvez o happy hour londrino acontecesse mais tarde. Era começo do outono, então ainda não estava tão escuro esse horário. A fachada parecia mais uma taverna medieval, com um toque moderno no seu letreiro de led neon. Além do balcão e mesas, comuns como em qualquer bar europeu, tinha uma porta ao lado do banheiro com uma luz acesa vermelha e uma placa com os dizeres Poker’s Room. O bar era bem discreto, além do letreiro neon, nada mais chamava atenção na fachada ou na decoração interna. Quem passasse por aquela rua só veria esse lugar se morasse aqui perto ou soubesse por alguém.

Peguei minha cerveja no balcão e me sentei na mesa que dava de frente dessa porta. Queria saber mais sobre como funcionava esse lance de luz vermelha, já que bem ao lado dela tinha um spot verde apagado. Talvez as pessoas alugassem essa sala para reuniões de Poker. Fiquei com vergonha de perguntar, por isso observar foi o bastante para mim.

Bebi mais 2 canecas de cervejas e já estava ficando sonolenta. Dei uma sondada no bar e estava mais cheio e barulhento. Quando voltei a olhar para porta, a luz verde estava acesa. Mas o que me intrigou foi que não vi ninguém entrar por ali. Talvez tivesse uma outra entrada para essa sala. Eu não iria me arriscar, abrir a porta e dar de cara com uma gangue. Não é assim que acontece nos filmes? Resolvi ir embora e procurar um lugar para comer, um jantar delicioso e barato.

Andei até o final da rua e quando fui virar a esquina a tragédia aconteceu. Trombei em cheio em um cara que estava com moletom e capuz olhando para o celular. Ia direto com o rosto no chão, mas ele foi mais rápido e conseguiu me segurar pelo braço e me girar para eu só cair sentada. Não sei se a calçada estava gelada ou molhada, mas senti como se tivesse sentado em um banco depois da chuva.

Talvez nessa confusão de segundos, que para mim pareceu horas, arremessei meu celular para o meio da rua e só fui perceber quando ouvi um crack vindo logo abaixo do pneu do táxi preto que estava passando. Ainda sentada no chão, pude ver de camarote meu celular ser esmagado.

Levantei arrasada e corri pegar meu celular ou pelo menos o que sobrou dele. Fique tão preocupada com o que tinha acabado de acontecer, que nem prestei atenção no cara que eu trombei. O celular estava totalmente destruído, nem se mandasse consertar ia resolver, pois estava afundado em umas partes e a tela totalmente quebrada. Será que a Apple ia aceitar como troca para um novo?

O cara de moletom só gritou da calçada desculpas e continuou apressado virando a esquina. Como estava escuro, não consegui ver o rosto dele dentro do capuz. Fiquei tão atônita por ele nem ter esperado eu voltar para a calçada, que acho que paralisei por uns 2 minutos no meio da rua com o olhar fixo para o lugar onde ele estava.

Sentei no meio fio, bem abaixo de um poste para verificar com mais detalhes o estrago. Agora me diz, como ia comprar um celular novo estando em um país diferente e que ainda cobra em libra. Faltava meu intercâmbio inteiro pela frente para eu ficar incomunicável. Meu inglês era ok, mas não tão perfeito a ponto de me virar só pedindo informação por aí.

Depois de uns 5 minutos vi uma sombra atrás de mim. Virei e o cara de moletom tinha voltado. Levantei e ele meio sem graça tirou o capuz e me olhou bem nos olhos. Eu já tinha visto aquele rosto, mas não podia acreditar em quem era. Talvez fosse um sósia. Só podia ser um sósia. Qual a probabilidade do vocalista da minha banda de rock indie favorita ter esbarrado em mim em um intercâmbio de apenas 3 meses, na primeira semana ainda. Confesso que depois que o reconheci, nem pensei tanto no celular.

– Oi, me desculpa mesmo pelo celular. Eu estou meio atrasado, não consigo fazer algo a respeito do seu celular agora, mas pega esse cartão, tem o número do meu agente. Liga amanhã que ele pode resolver isso para você.

Demorei mais que o normal para pegar o cartão, eu ainda estava em choque e só conseguia ficar olhando para o rosto dele. Queria ter certeza de quem era. Ele pegou minha mão e colocou o cartão nela.

– Ah sim, obrigada. Posso só confirmar uma coisa rapidinho?

– Claro, pode falar.

– Você é o Noah Marth?

Ele ficou meio sério, olhou para o lado, meio incomodado.

– Sim, sou. – Respondeu parecendo bravo. Talvez não quisesse lidar com uma fã nesse exato momento.

– Ah! Ok. Amanhã eu ligo então. – Balancei o cartão na frente do rosto dele.

Podia ter pedido foto ou autógrafo? Podia. Mas não quis incomodar mais do que ele já parecia estar.

– Combinado! Fala que é sobre o celular quebrado que vou deixar ele avisado.

– Pode deixar.

– Seu sotaque…você não é daqui né?

Pensei: Será que meu sotaque é tão ruim assim?

– Não, sou brasileira. Aliás, meu nome é Alicia.

– Que legal! Já fizemos alguns shows lá. Gosto bastante do Brasil… Bom, agora preciso mesmo ir e mais uma vez desculpa. Prazer em te conhecer, Alicia.

– Sem problemas, o prazer é todo meu!

Ele foi apressado embora novamente.

O quão surreal era isso para mim. Fiquei pensando, como ele confiou em me dar um número sem saber se eu não era uma fã maluca. Talvez eu não tenha cara de fã maluca ou ele estava com tanto remorso pelo meu celular que resolveu me dar um voto de confiança.

Depois de tudo isso, tinha perdido até a fome e resolvi que era melhor ir para a casa, tomar um longo banho e dormir. Amanhã teria mais aventura.

***

Foi uma noite meio complicada. Momentos de insônia. Acordei cedo, se posso dizer que dormi. Ele não tinha me falado qual a hora era melhor ligar. Mas achei chato ligar de manhã. Então prometi para mim mesmo que só ia ligar ao meio dia.

Ansiosa que sou, você deve imaginar a tortura que foi esperar todo esse tempo. Depois de inventar mil e um passatempos e não conseguir me concentrar em nenhum, vi que o relógio tinha dado o horário.

Tinha me esquecido que estava sem telefone e precisaria arrumar um. Podia ir em um desses telefones públicos que são como o cartão postal da Inglaterra, mas era quase certeza de serem só enfeite. A minha única opção foi contar com a hospitalidade britânica, que é quase inexistente, diga-se de passagem. Fui até uma padaria que ficava ao lado do meu prédio e com a maior cara de pau brasileira pedi para usar o telefone. O atendente só me deu um cartão e apontou para um telefone que tinha instalado dentro da padaria. Paguei 5 libras no bendito cartão e fui até lá.

No segundo toque, o agente já atendeu. Expliquei quem eu era e ele combinou de me encontrar à noite, no Dante’s bar, naquela salinha que eu tanto queria ver como era.

Pronto, seria mais algumas horas de tortura. Um belo exercício de paciência e ansiedade.

Vou confessar. Apesar de toda a ansiedade, capotei e acordei só 10 minutos antes do horário combinado. Será que a pontualidade britânica e o atraso brasileiro ia me causar alguns problemas? Escovei os dentes, penteei o cabelo e fui correndo até lá. Nem tempo de passar uma maquiagem tive. Ainda bem que era bem perto de onde moro. Cheguei só 5 minutos atrasada. Já no bar, vi que a luz estava verde agora. Perguntei no balcão e o atendente pediu para eu entrar.

A sala era uma sala de jogos bem comum. As paredes tinham alguns pôsteres de jogos de cartas, carpete vermelho no chão e uma mesa redonda enorme com umas 10 cadeiras em volta. Também tinha alguns fliperamas em um canto. Pensei que ia ser rápido. O agente ia me entregar um celular novo, pedir para eu assinar um contrato de confidencialidade e eu iria embora. Mas quem estava sentado me esperando era o Noah.

Ele estava agora mais Noah. Com o cabelo para trás, mas uma mecha caída no rosto. Uma camisa e um blazer. A roupa que a gente vê em todo o show. Não posso dizer que ele é bonito. É magro, com nariz grande e olhos estranhos. Mas é daqueles caras que se tornam bonitos pelo jeito de ser, de falar e de olhar. E a voz dele, pelo menos nos shows, é maravilhosa. Podia ficar o dia todo ouvindo ele falar.

Quando me viu, penteou os cabelos para trás com as mãos, do jeito que só ele sabe fazer. Levantou e veio em minha direção.

– Alícia, certo?

– Sim, certinho.

Olhei para a cadeira onde ele estava e perguntei:

– Pensei que fosse encontrar seu agente aqui e não você.

Meio sem graça, penteou os cabelos de novo e me olhou:

– É que eu me senti culpado por nem ter perguntado se você estava bem do tombo. Estava atrasado e não tive tempo de te ajudar muito. Então resolvi eu mesmo entregar seu novo telefone.

– Não precisava! Eu estou bem. Só um pouco dolorida – Dei risada e ele vendo que estava tudo deu, riu junto.

Foi até a mesa e me trouxe a caixa do celular. Era um modelo a mais do meu. Não sabia se só agradeceria ou recusava. Odeio fazer com que as pessoas gastem tanto comigo e me façam favores desse tipo.

– Esse modelo é um superior ao meu. Você deve ter gastado muito dinheiro. Se quiser trocar pelo anterior, talvez eles te devolvam a diferença. Ai você pode enviar por correio mesmo, não precisa gastar seu tempo vindo aqui.

Fui devolver a caixa, ele virou de costas e foi até a mesa me ignorando totalmente.

– Fica tranquila. Isso não é nada. E não estou gastando meu tempo vindo aqui.

Parece que ficou bem ofendido com o que eu disse. Então tentei mudar de assunto.

– Eu sei que não tenho muito direito de pedir mais um favor – Balancei a caixa e dei uma risadinha – Mas será que você poderia tirar uma foto comigo? Eu gosto muito das suas músicas. Só vou ter que ligar o celular e configurar ele primeiro.

– Claro, sem problemas. Vou pegar uma coisa que esqueci no carro enquanto você configura e já venho.

Ele saiu por uma porta dos fundos que tinha bem ao lado do fliperama. Provavelmente dava para o estacionamento. Agora tudo se encaixava. Então era dali que as pessoas entravam e saiam sem ninguém ver e por isso que a luz mudou de cor sem que alguém tivesse entrado ontem, enquanto eu observava a porta.

Sentei na mesa e configurei todas as contas. Já estava pronto para ser usado. Só o meu chip do Brasil que tinha sido totalmente destruído no acidente. Então teria que comprar um daqui mesmo.

Estava tão concentrada vendo meu novo celular que não percebi que ele já tinha voltado. Levei um susto quando ele colocou entre meu rosto e o celular o novo álbum da banda.

– Como você disse que gostava da minha banda. Quero te dar esse presente.

Fiquei tão feliz que nem sabia como agradecer. Levantei e dei um abraço nele. Ele assustou e deu um pulo para trás. Na hora, meu lado brasileira falou mais alto e esqueci da regra don’t touch dos estrangeiros. Soltei e pedi mil desculpas. Ele vendo meu desespero começou a dar muita risada.

– Por essa eu não esperava. – Falou ainda rindo.

– Já configurei meu telefone. Vamos tirar uma foto?

Ele pegou o celular da minha mão. Colocou uma mão em volta dos meus ombros e tiramos uma selfie. Devolveu meu celular, nos despedimos, eu agradeci mais uma vez e ele saiu pela mesma portinha de antes. 

Voltei para o bar e pedi uma tequila. Precisava de um choque para voltar a realidade. Tomei meu shot no balcão mesmo e pedi uma cerveja. Sentei em uma das mesas, tomei um gole da cerveja e abri o álbum. No encarte tinha um autógrafo com uma dedicatória:

“Para Alícia, a brasileira que eu atropelei. Assinado Noah Marth”.