– Está aberta a sessão – Anunciou o juiz.
 
Sentado ao lado de seu advogado, o réu. Um homem de meia idade, magro, com os cabelos lambidos para o lado, terno maior do que ele, talvez tivesse emprestado de alguém, já que pela sua aparência não deve ter muito dinheiro. Devia estar suando frio, estava pálido, parecia que a qualquer momento desmaiaria.
 
Eu estava sentado junto as outras pessoas que iam participar do júri popular. Conseguia ver perfeitamente o acusado e o juiz, estava em uma posição privilegiada.
 
Irônico me chamarem para julgar um assassino, já que entendo perfeitamente o lado dele. Meu currículo é vasto. Se soubessem…
 
– Muito bem. Vamos ouvir primeiramente a acusação.
 
Obedecendo as ordens do juiz, o promotor foi à frente e montou seu pequeno espetáculo. Em um cavalete, estava apoiada uma foto grande da vítima, morta, do mesmo jeito que foi encontrada. Na TV, passava a imagem de uma das câmeras de segurança do local onde tudo aconteceu. No outro cavalete, a foto do acusado ao lado da imagem congelada da câmera de segurança.
 
– Como podemos observar, essa senhora foi encontrada afogada na banheira de seu apartamento, três horas após um técnico da TV de assinatura chegar a casa dela. Temos registro aqui – falava enquanto entregava papéis ao júri e ao juiz – que quem foi escalado para ir a casa da vítima foi o acusado e conforme as câmeras de segurança mostram, ela não recebeu nenhuma visita depois desse período.
 
Sinceramente, não estava prestando muita atenção, só dei uma olhada inicial para saber o que tinha acontecido. Já matei uma velhinha nessas mesmas condições. Coitada. As pessoas dão oportunidade para coisas ruins acontecerem. Não é culpa minha. Foi a morte mais fácil e o único assassinato que não deixei minha marca. Não tive razão antecipada e fiz por impulso, não planejei muito dessa vez. Deu-se mais por uma questão de oportunidade. Eu estava no lugar certo, ela com a pessoa errada.
 
Quando voltei para a realidade, o réu já estava respondendo as perguntas feitas pelo promotor. Acabei perdendo boa parte da história.
 
– O senhor pode me informar o horário que saiu da casa da vítima? – perguntou o promotor.
 
– Era umas duas horas da tarde, senhor. Eu juro que não a matei, quando sai, ela estava viva! – falou desesperado.
 
– Ela estava sozinha?
 
– Acho que sim, não sei, eu fiquei na sala só, não vi em outros comôd..
 
– Então você não viu mais alguém no apartamento? – interrompeu o promotor.
 
– Não, mas fiquei só…
 
– Obrigado, era só isso – interrompeu novamente o promotor.
 
Estava ficando cansado daquele blá, blá, blá. Resolvi olhar as provas atentamente e ver como eu faria, sem ser pego.
A vítima realmente é muito parecida com a velhinha que matei. O prédio que está passando nas filmagens é o mesmo, disso eu lembro. Dois assassinatos no mesmo prédio? Precisam rever a segurança ou quem sabe benzer. Vontade de gargalhar agora, mas não posso. Droga.
 
Será que tem uma foto dela viva, talvez eu tenha visto quando passei pelo prédio. Claro que tem! Ó lá, toda sorridente com os netinhos. Como isso é patético. Calma ai, acho que já vi ela. Não pode ser! É a mesma velhinha. Agora sim que queria dar uma bela gargalhada. Se eu acreditasse em destino ia agradecer pela brincadeira. Essa vai ficar para a história.
 
– Como podemos ver na simulação do assassinato e segundo as provas demonstradas aqui, foi assim que ocorreu – Afirmou o promotor, após passar um vídeo de uma simulação feita do crime.
 
Esse promotor idiota. Não foi assim que aconteceu, queria mandar eles calarem a boca para contar como realmente foi. E esse imbecil levando o crédito. Ele não tem inteligência suficiente para matar alguém. Tudo bem que não foi o assassinato mais bonito que fiz, mas mesmo assim. Deveria ter deixado minha marca como nos outros, assim não teria essa confusão e o crédito ia ser meu.
 
– Isso é ridículo! – gritei sem perceber.
 
Todos olharam pra mim e começaram a cochichar.
 
– Ordem! – o juiz falou, batendo o martelo – O senhor está com algum problema?
 
– Não, Vossa Excelência, me desculpe – afirmei.
 
– Prossiga – falou o juiz para o promotor que chamou uma testemunha de acusação.
 
Tenho que me controlar. Droga. Será que falta muito? Não aguento mais. Bela hora para aceitar isso. Ainda estou inconformado desse magrelo levar o crédito. Que ódio. Se pudesse matava ele também. Apesar que esse coitado não tem culpa nenhuma de levar o crédito. Quer saber, vou embora.
 
– Desculpa senhor, tem algum problema? Ainda não acabamos – Afirmou o juiz novamente, ao ver um policial tentando me convencer a sentar de novo.
 
Já estava cansado desse juiz, desse promotor de merda e de como estavam falando da morte que EU CAUSEI. Eu levo a sério, é como uma obra de arte pra mim. Quer saber, cansei!
 
– Vossa excelência, é que eles são tão inúteis – Apontei para o promotor e policiais – que pegam o culpado errado, erram ao falar de como ocorreu e ainda faz todo mundo perder seu tempo.
 
Me aproximando do acusado e apontando para ele, continuei:
 
– Você, seu promotor de merda, acha mesmo que esse coitado conseguiria a proeza de assassinar aquela obesa? Ele não levantaria nem uma perna dela e não teria inteligência suficiente.
 
Não consegui me segurar e ri. Ri com gosto da cara de espanto das pessoas. Me olhavam como se eu fosse louco.
– Por que estão me olhando dessa forma? Não, eu não sou louco.
 
Olhei fixamente para o promotor, com ainda mais ódio e confessei:
 
– Essa obra de arte apesar de não assinada é minha, seu idiota! MINHA!
 
Ele quase caindo no chão, pela surpresa. Os policiais já atentos para me prender. Olhei para o juiz, como em um ato final da minha peça:
 
– Prazer, Vossa Excelência, sou Jerry ou como os jornais costumam me chamar, Sunker Hand.